Quem defende a liberdade de expressão na América Latina? Novos dados para um velho debate
Na América Latina, falar sobre liberdade de expressão muitas vezes envolve olhar para cima: o que os governos dizem, o que os juízes silenciam, como as plataformas agem. Mas, com menos frequência, perguntamos o que os cidadãos pensam. Quão comprometidos estamos, como sociedades, em defender esse direito quando ele é posto à prova?
El relatório recente do O futuro da liberdade de expressão nos dá uma oportunidade única de explorar essa questão. Com base em pesquisas realizadas em outubro de 2024 com mais de 50.000 pessoas em 33 países — incluindo Argentina, Brasil, Chile, México e Venezuela — o estudo mede o apoio social à liberdade de expressão em suas diversas formas, desde a rejeição abstrata à censura até a tolerância a declarações desconfortáveis, ofensivas ou politicamente sensíveis.
No CELE, analisamos os resultados com uma dupla pergunta em mente: O que o estudo diz sobre a América Latina e por que deveríamos nos importar?
Um encosto alto… com nuances
A primeira notícia: a região apresenta altos níveis de apoio geral à liberdade de expressão. Chile (81,3%), Venezuela (81,8%), Argentina (78,97%), México (76%) e Brasil (70,3%) estão acima da média global no ranking. Índice do Futuro da Liberdade de Expressão, um indicador que combina respostas sobre rejeição à censura e tolerância a declarações críticas ou ofensivas.
Como qualquer índice agregado, este também esconde nuances. Em vários países, por exemplo, a disposição para aceitar críticas ao governo coexiste com uma rejeição acentuada a discursos que ofendam símbolos nacionais ou minorias. Em outras palavras: a liberdade de expressão é valorizada, mas não em sua totalidade.
O índice coloca a Argentina entre os países com maior apoio geral à liberdade de expressão. Isso a coloca acima de democracias consolidadas como Alemanha e Austrália, e destaca uma ideia que vale a pena observar atentamente: em nossa região, a demanda social por liberdade de expressão parece ser mais forte do que as garantias institucionais que a sustentam.
No entanto, o panorama se torna mais complexo quando o relatório analisa os dados. Por exemplo, apenas 23% dos entrevistados na Argentina aprovam que a inteligência artificial gere conteúdo ofensivo contra minorias. Trata-se de um baixo nível de tolerância — e não exclusivo do país — que demonstra uma tensão crescente: a tensão entre o medo do abuso da IA e a defesa do direito de se expressar, mesmo correndo o risco de causar desconforto.
Quem deve regular a IA?
Uma das contribuições mais inovadoras do relatório é a inclusão de perguntas sobre o uso de ferramentas de IA generativa para produzir conteúdo sensível. Em todos os países da região, a maioria das pessoas se mostra cética em relação a esse tipo de uso. A produção de deepfakes de figuras políticas, em particular, gera forte oposição.
Diante disso, a opção mais apoiada em países como Argentina, México ou Brasil é a regulação dupla, uma espécie de equilíbrio: regular a IA, sim, mas entre o Estado e as empresas de tecnologia. Destaca-se o caso do México, onde 46% escolheram essa alternativa. A desconfiança em relação a ambos os atores, separadamente, parece ser forte o suficiente para preferir uma solução mista, embora ainda seja Ainda há muito o que discutir sobre como essa “co-regulação” se materializa.
E se a informação for cara?
Outra descoberta relevante: na América Latina, há uma tolerância relativamente alta à publicação de informações "custosas" — por exemplo, sobre questões sensíveis de segurança nacional ou aquelas que podem afetar a estabilidade econômica. No Chile, Argentina e México, a maioria acredita que os veículos de comunicação deveriam poder publicar esse tipo de conteúdo.
Isso é especialmente significativo em contextos onde os governos frequentemente invocam razões de "segurança" ou "estabilidade" para restringir o acesso à informação pública. O fato de os cidadãos não endossarem automaticamente essas narrativas, como as conclusões do relatório sugerem, é um sinal de maturidade democrática ou de um nível razoável de ceticismo que vale a pena destacar.
Na Argentina (78,68%), Brasil (73,27%), Chile (89,9%), México (76,52%) e Venezuela (76,3%), grandes maiorias acreditam que informações econômicas sensíveis não devem ser restringidas; em relação ao direito de publicar sobre questões de segurança nacional, os números são igualmente impressionantes: ele é apoiado por 68,81% dos argentinos, 71,84% dos brasileiros, 76,54% dos chilenos, 72,95% dos mexicanos e 73,58% dos venezuelanos entrevistados.
Em todos os casos observámos níveis substanciais de tolerância, especialmente em contextos de instabilidade recorrente, onde o medo da “desestabilização” funciona frequentemente como argumento para a censura ou sobre vigilância.
O que esses dados implicam para a América Latina?
O relatório não oferece respostas simples, mas nos obriga a pensar com mais precisão. As sociedades latino-americanas parecem dispostas a defender a liberdade de expressão como princípio, mas não sem condições. Discursos ofensivos ou os novos desafios impostos pela inteligência artificial desgastam essa defesa, e a disposição de aceitar restrições "pelo bem comum" permanece forte.
Para nós que trabalhamos pela proteção do direito à liberdade de expressão, essas nuances são importantes. Porque não basta denunciar leis regressivas ou pressões estatais: é preciso também compreender os valores, os medos e os limites de tolerância que circulam na opinião pública.
A liberdade de expressão não se sustenta apenas por regras. Ela também requer uma cultura cívica que a valorize, mesmo quando se torna desconfortável. As conclusões do relatório O futuro da liberdade de expressão Eles nos lembram que essa cultura é contestada — e que vale a pena continuar perguntando quem a defende e em que condições.