O surto da pandemia de COVID19 deixou o mundo todo tenso. Enquanto pesquisadores, médicos e cientistas estão de olho em possíveis soluções ou respostas que atenuam a propagação do vírus, o resto do público também está enfrentando a questão de uma maneira ou de outra. A população mundial sofreu uma ruptura em suas rotinas, tendo que se adaptar a diferentes dinâmicas de trabalho que o habitual. Muitas pessoas viram suas tarefas de trabalho, seus laços familiares e emocionais e seu tempo de lazer transferidos para o ambiente digital. Em um contexto de presença e participação significativa de pessoas na Internet e do uso de dispositivos móveis, a circulação de conteúdo nas redes sociais também foi impactada pelo surgimento do COVID19. 

Qual tem sido o papel das principais plataformas nessas semanas? Em termos gerais, pode-se dizer que eles mostraram uma presença forte e um papel ativo na moderação do conteúdo que circula neles. Há quem até sustente que é assumindo o controle do ecossistema de informações como nunca antes. Apesar disso, as principais empresas enviaram seus trabalhadores para trabalhar em suas casas, deixando um fluxo maior de conteúdo nas mãos de ferramentas de inteligência artificial e aprendizado de máquina.

Vejamos, por exemplo, algumas das medidas que o Facebook e o Twitter adotaram em tempos de pandemia. Em março, o Facebook começou a anunciar seu "Centro de Informações COVID-19" (Centro de Informações COVID-19) dentro de sua plataforma, localizada na parte superior da feed de notícias e isso inclui atualizações em tempo real das medidas tomadas pelas autoridades nacionais e organizações globais como a Organização Mundial da Saúde (OMS). No comunicado de imprensaA empresa também observou que eles estavam "monitorando cuidadosamente os padrões de uso do usuário", "tornando os sistemas mais eficientes" e "adicionando recursos conforme necessário". No entanto, para priorizar e fornecer informações confiáveis, não está totalmente claro como eles agirão contra as medidas governamentais que não seguem as recomendações da OMS ou as fontes que eles consideram com autoridade ou crédito para emitir sobre o assunto. Este seria o caso, por exemplo, de Governo nicaragüense

Quanto às notícias falsas, o Facebook trabalhou ativamente para remover todo o conteúdo relacionado ao COVID19 que pode "contribuir para danos físicos iminentes". Neste sentido, outra declaração emitido nos últimos dias de março indica que, desde janeiro, eles se retiraram posts que "eles fazem alegações falsas sobre curas, tratamentos, disponibilidade de serviços essenciais ou a localização e gravidade da pandemia". Um exemplo de publicação que pode ser removida por esse motivo é aquele que afirma que o distanciamento físico não ajuda a impedir a propagação do vírus. Por outro lado, eles também se concentraram em trabalhar com verificadores de fatos lidar com o que eles identificam e se referem como conteúdo que não resulta diretamente em danos físicos, mas pode causar transtornos sociais, como teorias da conspiração sobre a origem do vírus.

Seguindo essa política, há alguns dias a empresa excluiu uma postagem do presidente brasileiro Jair Bolsonaro, que gerou polêmica e opiniões contraditórias. No vídeo, o presidente afirmou que "a hidroxicloroquina funciona em todos os lugares", apesar dos avisos das autoridades de saúde de que a droga ainda está sendo submetida a testes para determinar sua eficácia. O Facebook considerou que esse conteúdo, independentemente de seu emissário, violava as regras da rede social ou Padrões Comunitários e, portanto, removido.

Do mesmo modo, o Twitter publicou declarações públicas sobre o adaptação 

de suas políticas enfrentando o surto da pandemia. A empresa afirmou que expandiu sua definição de "dano", para poder incluir conteúdo lá que vai diretamente contra as recomendações das autoridades de saúde locais e globais. Embora o Twitter tenha uma posição muito aberta em relação a conteúdo de interesse público (ou seja, os tweets eles permanecem mesmo que violem as regras da rede social se tiverem valor para a "saúde da conversa pública"), ele não mostrou tanta tolerância com o conteúdo publicado por Bolsonaro e pelo presidente venezuelano Nicolás Maduro. Ambos os líderes fizeram declarações contrárias ao que foi sustentado pela OMS, então seu os tweets eles foram removidos.

Diante desse cenário, aparecem algumas perguntas sobre as lacunas que ainda persistem em torno das políticas dessas plataformas. Alguns dias atrás, Agustina Del Campo comentou neste blog que existe um debate que precede a COVID19 sobre como as empresas definem e qualificam o discurso de funcionários públicos. Nos exemplos citados acima, a importância dessa discussão é clara. 

Mas também surgem novas perguntas: que conteúdo está sendo removido? Existem ou serão gerados relatórios que podem mostrar moderação de conteúdo e seus possíveis efeitos em tempos de pandemia? Se, como o Facebook anunciou, seus moderadores de conteúdo estão trabalhando remotamente e, portanto, o uso da inteligência artificial aumentou e aprendizado de máquina para bandeira e remover conteúdo que viole as regras da rede, até que ponto é possível definir a legitimidade do conteúdo

Nesse sentido, existe um debate aberto que antecede a pandemia em relação ao uso e conveniência da automação para resolver problemas de conteúdo que requerem análise de contexto, idiomas locais, conjuntura etc. Portanto, não surpreende que atualmente haja vozes (por exemplo, Emma Llanso, do Centro de Democracia e Tecnologia), pedindo às empresas que gerem uma análise detalhada de como os mecanismos funcionavam em meio à automação forçada quando a crise termina. Embora algumas empresas (Twitter, Facebook, YouTube) tenham esclarecido de antemão que grande parte do conteúdo seria desproporcionalmente afetado, apesar de seus melhores esforços, seria essencial saber que tipo de conteúdo era mais propenso a erros ou que vozes eram. eles foram reduzidos ou restringidos pela automação nesse período. As respostas a essas perguntas servirão para as empresas avaliarem objetivamente o desempenho de seus algoritmos e sistematizarem alguns dos dados para os quais atualmente só temos informações anedóticas. E eles poderiam, por sua vez, servir como uma base empírica na proposta de regulamentação da plataforma que foi discutida em todo o mundo nos últimos 2 anos.  

 

Por Paula Roko

TW @paulaaroko

autor